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O PEQUENO PRÍNCIPE – Um tapa de luvas na paternidade


Quem nunca leu ou ouviu alguma citação do livro O pequeno príncipe? O livro infantil já foi traduzido para mais de 80 idiomas e leva lições de vida desde os anos 40. A linguagem direta se assemelha à fala sincera de uma criança e me faz pensar em homens, pais, figuras de referência, que se trancam em seus mundos de certezas e esquecem de ver além do invisível. Esse certamente não é um livro feito para crianças, mas um tapa na cara do mundo, que vivia a frieza da segunda guerra mundial e que eu trago para a paternidade.

O livro curtinho me permitiu devorá-lo em apenas algumas horas. Foram momentos intensos passeando pelos planetas pequeninos e conhecendo os moradores caricatos, que nos remetem a figuras do nosso cotidiano.

Depois de ter saído do seu universo, o pequeno príncipe visita vários planetas e, em cada um deles, conhece homens, adultos e donos daquele local. Se você parar para pensar, representam a autoridade máxima sobre aquela terra, são os donos da lei e da justiça. Eles me fizeram pensar como a criança que avalia o comportamento do seu próprio pai dentro de casa. Os (maus) exemplos são surpreendentes, veja aí:

O REI

“É preciso exigir de cada um o que cada um pode dar”.

Esse é o primeiro “dono do mundo" que o Pequeno príncipe conhece. Esse rei tem a necessidade de ter o controle de tudo e de todos. Ele é autoritário e gosta que as pessoas o obedeçam e respeitem. Mas por trás da soberba, ele tem uma grande sabedoria. Sabe exatamente o que pode exigir de cada “súdito” e confessa que se exigir além das forças de cada um, ele causaria uma rebelião e seria o culpado. Apesar da coerência nos pensamentos, é uma pessoa difícil de lidar.

O BÊBADO

“– Por que é que bebes?

– Para esquecer.

– Esquecer o quê?

– Esquecer que eu tenho vergonha.

– Vergonha de quê?

– Vergonha de beber!”

Esse é o homem que escapa da realidade por meio do álcool, mas não consegue escapar da vergonha de ser como é. Seu desabafo é um alerta contra qualquer coisa que sirva como subterfúgio e afaste as pessoas da vida real. O bêbado não sente nada, além de pena de si mesmo. O pequeno príncipe até tenta ajuda-lo, mas ele se tranca em um profundo silêncio.

O HOMEM DE NEGÓCIOS

“- E de que serve possuir as estrelas?

- serve-me para ser rico.

- E para que te serves ser rico?

- Para comprar outras estrelas.”

O homem de negócios está tão preocupado contando o que acumulou que não pode desfrutar da vida. O pequeno príncipe compara ela ao bêbado, como uma pessoa que vive como um viciado e não consegue enxergar além do seu planeta.

O ACENDEDOR DE LAMPIÕES

“Aí é que está o drama! O planeta de ano em ano gira mais depressa e o regulamento não muda.”

O universo evolui diariamente, mas o dono desse planeta não. As regras são as mesmas há anos e nada pode fugir à elas. Ele parou no passado e se recusa a aceitar que o homem, as crenças e a evolução humana mudaram. Ele não tem bom censo de questionar as normas e trabalha sem parar, mesmo sabendo que não vai chegar a lugar nenhum.

O GEÓGRAFO

“- O seu planeta é muito bonito? Haverá oceanos nele?

- Como ei de saber? (...) O geógrafo é muito importante para estar passeando”

O geógrafo sabe toda a teoria, mas não aplica seus conhecimentos em nada. Ele é incompleto e se recusa a descer da cadeira para explorar as coisas que ele só conhece da boca dos outros. O rótulo o impede de ver as maravilhas de seu planeta, pois declara que isso é o trabalho de outra pessoa.

O VAIDOSO

“Mas o vaidoso não ouviu.

Os vaidosos só ouvem elogios.”

O vaidoso não percebe a necessidade das pessoas que estão ao seu redor. Ele se importa apenas com ele, nunca ouve as críticas e não vê seus defeitos. No começo, o príncipe até achou divertido, mas como nunca era ouvido, acabou se cansando daquilo e partindo pelo universo em busca de companhia.

O QUE ISSO TEM A VER COM PATERNIDADE?

Os líderes dos planetas têm algo em comum: Todos estão sozinhos e reinam sobre a própria cabeça. São homens carentes, que buscam desesperadamente por companhia, mas não sabem ver além dos olhos. Quantas visitas eles já receberam? Quantas pessoas já desistiram de povoar os seus planetas? Onde estão seus familiares, filhos, amigos? Essas e muitas outras perguntas podem ser feitas com personagens do nosso cotidiano. São pais que não enxergam além dos seus próprios interesses, acabam afastando os filhos e se fecham em um mundo inatingível.

A lei, os negócios, a soberba, a vergonha e a vaidade assumem o primeiro lugar e impedem a vida em comunidade. “O essencial é invisível aos olhos, e só se vê bem com o coração.” Uma das frases mais conhecidas de Antoine de Saint-Exupery e talvez, a mais verdadeira. O melhor de um amor, de um relacionamento, de um presente não é o que transmite aos outros, mas o quanto move nosso coração. “E nenhuma pessoa grande jamais entenderá que isso possa ter tanta importância!”

O que seu filho vê quando olha para você? Um homem solitário dando ordens em um planeta, ou uma raposa sábia que consola, cativa e não tem medo de amar?

O site Aprenda Aprender publicou o PDF com a íntegra do livro:


Um filme lançado em 2015 conta essa história de forma leve e divertida, veja o trailer:


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