• Jamile Damasceno e Marcos Romeu

Parto desumano - Uma das faces da Violência Obstétrica


“Me solta! Você não pode encostar em mim”.

Essa foi a frase ouvida pela jornalista Carol Perez durante uma forte contração do trabalho de parto. Segundo ela, o momento foi preparado com amor por uma família que encontrou em um hospital “referência” de Brasília o descaso e brutalidade por parte dos profissionais.

“Eu estava sozinha e segurei na mão dela por impulso, em busca de apoio e humanidade. Ela gritou comigo e me deixou só, como se eu fosse um objeto.” Com histórico de parto rápido, ela sabia que o filho nasceria em poucos minutos, mas mesmo assim, foi deixada em uma cadeira ginecológica e corria o risco de ver o bebê cair no chão, ao nascer.

“Minha mãe estava a caminho e meu marido ficou do lado de fora, pois foi impedido de entrar, o que também é um absurdo.”

Carol conta que segurou a cabeça do bebê com as mãos e teve que gritar para chamar a atenção dos médicos, que estavam em troca de plantão. Depois do estresse, um plantonista apoiou a criança e ela concluiu o parto normal. “Um hospital que era para ser referência em partos, tinha em seu quadro enfermeiras estressadas e nada humanizadas. Um absurdo como as mulheres sofrem naquele lugar”, completa.

A PRESENÇA DO HOMEM

A doula e pesquisadora Renata França confirma o problema. “Em toda a rede pública do DF, apenas a casa de parto de São Sebastião recebe o homem em todas as etapas do parto. Nos outros locais, a equipe que decide se o pai entra ou espera do lado de fora”.

Segundo ela, a violência contra os homens começa nas consultas, onde muitos são ignorados, ridicularizados, diminuídos. “Meu marido foi vítima dessa violência. Ele ia comigo em todas as consultas do pré-natal, mas era ignorado pelo médico, que não respondia às suas dúvidas e sequer olhava nos olhos dele”. Ela conta que ele queria participar de tudo e tinha seus anseios e dúvidas, que não eram reconhecidas pelo obstetra. “Ele sofreu muito por ser colocado de lado”. Renata acredita que muitos profissionais ainda tem a mentalidade de que o homem é apenas o reprodutor e provedor dentro da família e não como aquele que cuida, que tem sentimentos, que precisa participar.

HOSPITAIS PÚBLICOS DO DF

Renata participou recentemente de uma pesquisa do Ministério da Saúde sobre as maternidades públicas do DF. A pesquisa nacional será publicada até o final do ano, mas Renata adianta que as maternidades não se enquadram no perfil que é dito como humanizado. A profissional também faz o trabalho de doula voluntária para mães que não tem condições de pagar e presencia cenas de violência diariamente. “As mulheres vivem em situação traumática. Elas já chegam aos hospitais com a consciência de que vão sofrer”. Ela fala ainda que a estrutura é comprometida, e cita a Regional de Ceilândia como a mais problemática, em que se tem uma média de 30 partos por dia, sem espaço e sem insumos. “Essa condição leva os profissionais a perderem a capacidade de humanização”.

HUMANIZAÇÃO DO PARTO

O relato faz parte do cotidiano de muitas de famílias em Brasília. Segundo a enfermeira obstetra, Melissa Martinelli, dona da casa de partos Humaniza, violência obstétrica é todo e qualquer ato que não seja concedido pela gestante ou mesmo a que a deixe reprimida durante o seu pré-natal até o puerpério. A violência é caracterizada por palavras, feitos, imposições, omissões. É importante saber que a essa violência não se restringe à mulher. Ela é relacionada ao casal. Impedir o pai a assistir e estar no nascimento de seu filho, é um ato de violência e deve ser denunciado. “A única forma de se prevenir é se preparar, estudar seus direitos, estar sempre acompanhada e denunciar”. Melissa concorda que o momento fragiliza o casal que, muitas vezes, não consegue se impor dentro de um hospital. Muitas gestantes procuram a casa Humaniza depois de traumas em partos anteriores, principalmente quando foram tratadas com palavras, submetidas a procedimentos desnecessários sem autorização, como a episiotomia, foram induzidas a cesárias sem indicação comprovada, humilhadas, ridicularizadas. Muitas desistem do segundo filho e ficam com traumas. Nesses casos é necessária a atenção profissional, acolhimento, rodas de gestantes e tratamentos específicos. A violência obstétrica é mais comum do que se imagina. “Nunca deixe de denunciar e procurar a ajuda de um advogado. Isso faz com que um profissional pense duas vezes antes de cometer esse tipo de violência”, diz.

SAIBA MAIS

LEI

Lei do Acompanhante no Parto (lei nº 11.108

A mulher tem direito à presença de um acompanhante de sua livre escolha durante o pré-parto, parto e pós-parto imediato, e esse acompanhante deverá ser indicado por ela, independente do sexo.

CASA HUMANIZA

Saiba mais sobre a Casa Humaniza no site www.casahumaniza.com.br

REDE DE PARTO DO PRINCÍPIO

Dossiê elaborado pela Rede Parto do Princípio para a CPMI da Violência Contra as Mulheres

DECLARAÇÃO OMS

A Organização Mundial de Saúde (OMS) divulgou uma nova declaração sobre “Prevenção e eliminação de abusos, desrespeito e maus-tratos durante o parto em instituições de saúde”.

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