• Jamile Damasceno

Relato de parto - A visão da mamãe!


Já eram 7 da manhã e estávamos de pé, olhando um para o outro quando eu tive uma estranha sensação de fazer xixi contra a minha vontade. A água foi ate o pé. Dei um grito. Comecei a rir e o Marcos não entendeu nada. Depois de uns segundos eu entendi o que estava acontecendo e disse pra ele que ia nascer. Li dias antes que apenas 10% das gravidas estouram a bolsa. Eu desejei fazer parte dessa porcentagem. Pra mim foi um privilégio.

Nunca escondi de ninguém minha preferencia pelo parto Cesário. Não sei se foram as historias traumáticas do jornalismo ou a sensação de não estar no controle. Mas eu sempre fui muito definida com relação a isso. Já nessa gravidez eu queria que o bebê decidisse o momento de nascer. Eu queria tirá-lo com a certeza de que estava pronto. Eu queria ver a bolsa estourar, queria sentir as contrações, mas no fim queria uma Césaria mesmo! Controverso né?! Enfim, era isso.

No dia anterior, levantei meia noite e terminamos de organizar as roupinhas do Ravi. Passei a madrugada sonhando que ele iria nascer. Nada diferente das minhas noites normalmente agitadas. Acordei com isso na cabeça. Como um recado do corpo. Coisa de Deus.

Com a bolsa estourada, comecei a sentir um pouco de cólica. A cada dorzinha, mais e mais água. Marcos ficou sem ação, acho que não estava acreditando. Mandei arrumar as malas, pegar as coisas, arrumar o carro, tomar café. Ele obedecia. Como um robô. Mandamos mensagem pra médica e descobrimos que ela estava do outro lado da cidade, no horário de pico. Entre o certo e o duvidoso, decidimos ir, rumo ao hospital. Saímos. Ela me garantiu que não iria nascer naquela hora. Mesmo assim, entramos no congestionamento, fomos na contramão, ultrapassamos os carros. Marcos queria acionar a policia pra abrir caminho no trânsito, ou chamar o bombeiro que estava na parada de ônibus para ir com a gente. Enquanto isso, levamos mesmo no bom humor. Fizemos vídeos. Contamos piadas sem graça. Buscamos a autorização do convênio. Chegamos. As contrações começavam e uma moça já me pegou na porta com uma cadeira de rodas. Senti que eu estava no lugar certo. As pessoas me olhavam com uma feição de alegria engraçada, sabendo que aquele era o meu momento. Meu único medo era da minha médica não chegar a tempo. Não queria que o Ravi nascesse sem ela. Depois de acomodada no box de emergência, a segunda pessoa mais requisitada foi a fotógrafa e, na verdade, nem sei como me lembrei dela.

As horas foram passando e as contrações aumentando. É como se todos os meus órgãos abdominais fossem espremidos ao mesmo tempo e empurrados para baixo. A barriga virava uma bola dura. Depois que a contração passava, ficava tudo bem e o meu bom humor voltava. A dor me fazia acreditar que a dilatação já estava em 10 cm, mas quando a médica fez o toque, aliás doloridíssimo, disse que ainda estava em 3 cm. Acho que eu não ia aguentar e nem estava preparada pra isso. Esperei ate 13h38 e fomos pra Cesária. A anestesia foi bem mais tranquila que a da Tarsila, mas em compensação, pareceu bem mais difícil tirar o Ravi, que estava bem encaixado. Os profissionais eram maravilhosos. Depois de tantas coisas horríveis que ouvimos no especial para o blog sobre violência obstétrica, uma coisa me marcou muito. Durante a anestesia, duas moças, não sei qual o cargo, estavam na minha frente, durante uma contração, uma delas me disse: se você quiser, pode se segurar em mim. Agarrei o braço dela e logo a contração passou. Fui tratada com muito carinho. Achei aquele ato tão simples, mas muito humano.

Alguns minutos passaram e o Ravi veio ao mundo. O anestesista pegou na minha mão e disse, calma que ele já vai chorar. E chorou mesmo. Lindo e radiante, depois de fazer xixi em todo mundo. Me trouxeram ele e demos o primeiro beijo. Minha ocitocina foi a mil. Nunca vou me esquecer da textura e da temperatura do rostinho dele. Foi um parto exatamente como eu sonhei durante toda a gestação.

E foi assim que o dia 31 de outubro passou a ser uma das datas mais importantes da minha vida. Deus completou minha família: Mamãe, papai, Tarsila e Ravi - meu raio de sol;


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